Estudos Bíblicos

O Estado de Coisas no Tempo dos Apóstolos

O Estado de Coisas no Tempo dos Apóstolos
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

O assunto que desejo colocar agora perante o leitor cristão é dos mais importantes. Tudo aquilo que nos rodeia nos adverte de que estamos nos últimos dias e nos tempos difíceis de que nos falam 1 Tm 4:1; 2 Tm 3:1; 2 Pe 3:3 e 1 Jo 2:18. Não falo aqui das dificuldades políticas e sociais. Isso pertence ao mundo.

Falo do que diz respeito à “fé que uma vez por todas foi dada aos santos”(Jd 3). E ao cristão importa saber qual é, a respeito das coisas da fé, o caminho de Deus nestes tempos difíceis, a fim de nele andar em obediência e santidade. E evidente que não se pode conhecer esse caminho — a expressão da vontade de Deus — senão pela Sua Palavra, as Sagradas Escrituras, divinamente inspiradas.

Suponho, pois, que o amado leitor está plenamente certo de que tem nas Escrituras toda a Palavra de Deus, nada mais do que a Sua Palavra e, que, por isso mesmo, elas lhe são a autoridade máxima, a única que faz regra e à qual todo cristão tem o dever de se submeter.

Todo leitor atento das Escrituras tem de estar profundamente impressionado com o contraste que existe entre a Igreja, tal como apresentada no Novo Testamento, e o estado da cristandade dos nossos dias. É a primeira coisa sobre a qual me deterei e que é necessário fazer sobressair.

Durante a Sua vida na Terra, nosso Senhor Jesus Cristo reuniu à Sua volta um remanescente tirado da nação judaica. Eram Seus discípulos, os que creram nele e responderam ao Seu chamamento.

E deles que o Senhor diz, depois de ter sido rejeitado pelos principais dos judeus: “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, disse: “Eis a minha mãe e meus irmãos; porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste … este é meu irmão, e irmã, e mãe”(Mt 12:48-50).

Jesus não reconhecia em Israel senão aqueles que, unindo-se à Sua pessoa, faziam a vontade de Deus. Em todo o tempo e em todos os lugares, aquilo que caracteriza os que agradam a Deus e formam um remanescente no meio do mal geral é a obediência.

Continuando o relato evangélico, mais à frente, depois da confissão de Pedro (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”), ouvimos o Senhor anunciar aos Seus discípulos este grande feito: “Sobre esta pedra [— sobre a verdade capital que essa confissão encerra —] edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). A Igreja devia substituir Israel.

Era algo que ainda estava para vir, que Cristo devia edificar, uma coisa particularmente Sua — a minha Igreja — e que, uma vez estabelecida, estaria garantida contra todos os esforços do inimigo pelo poder vivificante do Filho de Deus. E note-se que é a primeira menção feita nas Sagradas Escrituras acerca da Igreja de Cristo.

Portanto, enquanto Cristo esteve neste mundo, a Igreja não existia. As pedras vivas que deviam formá-la estavam lá, na pessoa de Pedro e dos outros discípulos, mas Cristo não tinha ainda consumado a redenção nem havia mostrado, pela Sua ressurreição, o Seu poder de vida que triunfa da morte e daquele que detinha o poder da morte (Hb 2:14).

Ora, era sobre Cristo, “declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos” (Rm 1:4), que a Igreja devia ser fundada. Contudo, outro importante acontecimento devia ocorrer. O Espírito Santo ainda não fora dado (Jo 15:26; 7:39). O Espírito Santo era o poder que havia de reunir as pedras vivas e assentá-las sobre a Rocha, a fim de que o edifício se erguesse.

Origem e Desenvolvimento

Em cumprimento das promessas do Senhor, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre aqueles que estavam reunidos em Jerusalém (At 2:1-4). Desde esse momento, a Assembléia, ou Igreja, começou a existir. Em lugar do templo, Deus passou a ter sobre a Terra “uma morada no Espírito”(Ef 2:22) no meio daqueles sobre quem foi derramado o Espírito Santo — e desde então nunca mais teve outra.

Logo, a Assembléia que o Senhor prometeu construir, tinha começado a sua existência. Era composta por todos os que tinham crido no Senhor Jesus e tinham sido batizados no Espírito Santo.

Quando se verificou esse extraordinário acontecimento, aqueles que o Senhor tinha chamado, os apóstolos, com Pedro à frente, começaram a pregar o evangelho (At 2:14). Muitos creem na Palavra de Deus, são salvos, batizados e acrescentados… A quê? A Assembléia (At 2:47). Até aquela altura, a Igreja não tinha ultrapassado os limites de Jerusalém.

Mas em breve a obra estende-se. Dos judeus passa aos samaritanos e, logo em seguida, aos gentios (At 8:10). E por toda parte onde almas são convertidas ao Senhor, congregam-se e formam assembleias ou igrejas locais que, no Novo Testamento, não recebem outra designação a não ser “igrejas de Cristo”, com a indicação da cidade ou da localidade onde se encontram.

Assim, fala-se das igrejas da Judeia, da Samaria e da Galileia (At 9:31); da igreja de Antioquia, das da Síria e da Cilícia, da Galácia e da Ásia (At 13:1, 15:41; Gl 1:2; 1 Co 16:19); da igreja de Deus em Corinto, da dos Tessalonicenses em Deus o Pai, das igrejas de Cristo (1 Co 1:1; 1 Ts 1:1; Rm 16:16). E os que formam essas assembleias são chamados “os santos”,  “os irmãos” (At 26:10; Ef 1:1; At 11:29 — seria demasiado longo citar todas as passagens que contêm essas expressões).

 A Unidade

Todavia, embora houvesse igrejas locais em diversos lugares, uma grande verdade, um fato notável sobressai do conjunto das Escrituras do Novo Testamento: todas essas igrejas formavam sobre a Terra um só corpo — a Assembléia de Deus ou a Igreja de Deus, da qual cada assembléia local era a expressão viva ali, onde se encontrava.

Por isso o Senhor diz: “Edificarei a minha Igreja”. Portanto, ela é uma. O apóstolo Paulo fala aos anciãos da igreja de Éfeso, da “Igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue”. A Timóteo ele diz: “A casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo”.

Ainda aqui vemos que ela é somente uma. “Fomos todos batizados num só Espírito, para sermos um só corpo, quer se trate de judeus ou de gregos, de escravos ou de homens livres; e todos fomos dessedentados pela unidade de um só espírito”— diz ainda o mesmo apóstolo aos Coríntios.

“Há um só corpo e um só Espírito”, e esse corpo é a Assembléia, porque Paulo diz ainda:”.. .e, sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo”. “Ele é a cabeça do corpo” (At20:28; 1 Tm 3:15; 1 Co 12:13; Ef 4:4; 1:22-23; Cl 1:18).

Todas essas passagens demonstram a unidade da Igreja, e note-se que se trata, em todas elas, da Igreja sobre a Terra, da sua manifestação neste mundo como um só corpo.

Em qualquer lugar onde houvesse cristãos reunidos, eles eram ali, assim juntos, a expressão viva da Assembléia universal de Deus ou de Cristo, sem que nenhum outro nome os distinguisse, a não ser, talvez, os nomes de desprezo que lhes davam os seus inimigos, tais como, por exemplo, os de “nazarenos”, “seita impugnada por toda parte”, “O Caminho”, etc. (At 24:5; 28:22; 9:2; 24:14).

Havia, portanto, embora em diferentes lugares, uma única Assembléia cristã, a Assembléia de Deus, claramente distinta como corpo de tudo o que a rodeava, fossem judeus ou gentios, como o prova a seguinte passagem: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Co 10:32).

Fica, pois, claro que, quando uma alma tinha sido convertida ao Senhor, não tinha de procurar qual era a congregação a que deviam unir-se. Não havia mais do que uma assembléia de Deus em cada lugar, e a alma que tinha crido em Jesus, por essa mesma razão passava a fazer parte da Igreja dele, e era a ela incorporada.

Ficava então a fazer parte do corpo, ou seja, da Igreja de Deus em todo e qualquer lugar.

Facilmente se compreende que, tratando-se de um centro urbano de certa importância, poderia haver ali um ou vários pontos de reunião, mas a Igreja ou Assembléia era a mesma — era uma.

Era distinta do mundo e uma, segundo o voto expresso pelo Salvador na Sua oração: “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”(Jo 17:14 e 20-21).

Entrava-se ali, não por se aderir a um credo qualquer, não após uma instrução mais ou menos longa, mas pela conversão, “pela lavagem da regeneração e a renovação do Espírito Santo”(At 16:31-34; 2:38 e 41; Tt 3;5).

A Comunhão

As assembleias locais estavam em comunhão visível e palpável umas com as outras, porque todos aqueles que as formavam se consideravam membros do mesmo corpo (Rm 12:4-5; 1 Co 12:12 e 26-27). Numa mesma assembléia local, esta comunhão dos membros do corpo uns com os outros achava a sua expressão à Mesa do Senhor, no partir do pão.

Diz o apóstolo: “Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10:16-17).

Portanto, sendo todos os crentes membros do corpo de Cristo — a Igreja — a mesa à qual se sentavam, embora em diferentes lugares, era uma só e mesma Mesa do Senhor.

Aquele que se achava sentado à Mesa do Senhor em Corinto e ali partia o pão, em plena comunhão, sentava-se também à Mesa do Senhor em Roma e podia de igual modo ali partir o pão.

A unidade, do mesmo modo que a comunhão entre as assembleias locais, era assim expressa e guardada.

Mas era-o também de outra maneira: vemos a assembléia de Antioquia enviar socorros aos irmãos necessitados da igreja de Jerusalém (At 11:27-30). Essa mesma assembléia envia Paulo e Barnabé com alguns outros a Jerusalém para exporem aos apóstolos e aos anciãos uma questão relativa à observância das cerimônias judaicas pelos gentios.

Deviam eles observá-las ou não? Decisão tomada, fica confirmada a comunhão das igrejas locais da Judeia e dos gentios (At 15:30-31; 16:4-5). Outro fato que prova essa unidade e comunhão são as cartas de recomendação dadas aos cristãos que se dirigiam de uma assembléia a outra  (At 18:27).

 A Liberdade do Espírito

A essa liberdade se refere ainda o livre exercício dos dons nas assembleias.

Os obreiros do Senhor, sem receberem ordens de nenhum homem nem de nenhuma organização humana, conduzidos apenas pelo Espírito Santo, vão evangelizar ou apresentar-se nas diversas assembleias, para ensinarem ou edificarem, segundo o dom que receberam do Senhor (At 9:20; 8:4, 5, 26 e 40; 18:24-27; 1 Co 16:12, etc).

Ninguém se intitula nem é chamado pastor de uma assembléia, porque Pastor há um só, que é o Senhor. Todavia, em cada assembléia há vários anciãos (chamados, por vezes, bispos ou vigilantes), mas não se encontra nenhum traço de hierarquia, nem de consagração ou ordenação para além daquela que provém do Espírito Santo.

Não há, portanto, nenhuma espécie de clerezia na primitiva cristandade.

Os santos, isto é, os crentes sinceros, se reúnem em volta do Senhor para partir o pão, em memória da Sua morte (At 20:7; 1 Co 14:26-33). Se numa reunião alguém tem um salmo, um ensinamento, ou o que quer que seja, dado por Deus para edificação da assembléia, atua com plena liberdade (1 Co 14:26-33).

Se, por exemplo, alguém possui um dom, como um apóstolo, e se encontra presente, a assembléia fica contente por poder ouvi-lo.

Mas não vemos nem regulamentos nem organizações de espécie alguma, nem constituição! O Espírito Santo presente na assembléia (sendo reconhecida essa presença) é o seu guia — e havia ainda os ensinamentos dos apóstolos.

 A Disciplina

Podia haver uma ou mais desordens e podiam introduzir-se erros diversos, porém, nesses casos, a disciplina era exercida segundo a direção dada pelos apóstolos. Sendo caso disso, expulsava-se o malfeitor, a igreja separava-se do herege (1 Co 5:13; Tt 3:10-11; 2 Jo 9-10). Estas indicações eram consideradas suficientes.

Em Corinto, por exemplo, onde se encontravam ao mesmo tempo o mal moral e o mal doutrinário, o apóstolo não constitui nenhuma autoridade nem de um só homem nem de vários, para manterem a ordem e a pureza da doutrina.

É a própria assembléia que deve purificar-se do mal, seguindo as exortações do apóstolo inspirado, cujas palavras são os mandamentos do Senhor (1 Co 5:2-7; 14:37). A igreja, isto é, toda a assembléia era responsável de se separar do mal, de manter a ordem, de guardar a sã doutrina.

Conclusão

Tal era, naqueles tempos, a Igreja de Deus na Terra, a todos visível. Ela era uma, sem outra designação que não fosse a de Assembléia de Deus ou Assembléia de Cristo. Entrava-se ali pela conversão, embora houvesse um sinal exterior dessa entrada na confissão cristã — o batismo.

Exercia-se ali um ministério livre, segundo o dom da graça recebido — e a disciplina, levada a cabo pela própria Igreja, excluía o malfeitor e o herege. Desta forma, a Assembléia ou Igreja era, diante do mundo, um testemunho único e vivo da presença do Espírito Santo, da glorificação de Cristo e do poder vivificante da graça.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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