Estudos Bíblicos

Definições Fundamentais da Pregação

Definições Fundamentais da Pregação
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

Este assunto é o desenvolvimento das duas definições seguintes:

1. A pregação é a Palavra de Deus pronunciada por Ele mesmo.

Deus utiliza como lhe apraz o serviço de um homem que fala em Seu Nome a seus contemporâneos, por meio de um texto bíblico. Este homem obedece assim a vocação que recebeu na Igreja e, por este ministério, à Igreja se conforma a sua missão.

2. A pregação resulta da ordem dada à Igreja de servir a Palavra de Deus, por meio de um homem chamado para esta tarefa.

Trata-se para este homem de anunciar a seus contemporâneos o que ele tem a entender do próprio Deus, explicando, em um discurso em que o pregador exprime livremente, um texto bíblico que lhes concerne pessoalmente.

Por que estas duas preposições? Porque o ato da pregação apresenta um duplo aspecto: Palavra de Deus e palavra humana.

Se nós desejamos definir teologicamente o que se passa quando o homem prega, nós não podemos fazer outra coisa senão dar indicações, colocar pontos de reparo. Para além da reflexão humana, somos enviados a Deus que diz a primeira e última palavra. Deus não pode ser encerrado em qualquer conceito: Ele vive e age em Sua autoridade soberana.

O teólogo deve percorrer dois caminhos: o do pensamento ascendente e o do descendente. Assim fazendo, ele não pode realizar sua missão de anunciados da Palavra de Deus senão de uma maneira fragmentária e imperfeita. Mas se ele executa corretamente esta tarefa, ele está seguro de fazer o que tem a fazer, e o que deve fazer.

Seu discurso é livre, pessoal. Não é nem uma leitura nem uma exegese. Ele diz a Palavra que ele entendeu no texto da Escritura tal como ele a recebeu para si mesmo. Sua missão, como pregador, é semelhante – de algum modo – à dos apóstolos. Ele também tem – num outro plano – uma função profética.

A tentativa de servir a Palavra de Deus, de a anunciar, é ordenada à Igreja. O termo que convém aqui para explicar a situação é Ankündigung (anúncio de um acontecimento por se realizar), mais que Verkündigung (anúncio do que é).

Deus vai fazer-se entender; é Ele que fala, não o homem. Este último vai somente anunciar (Ankündigen) que Deus vai dizer alguma coisa. Nesta palavra Ankündigung não está incluída, contudo, a ideia de apelo a uma decisão da parte daquele que escuta. Esta decisão, que tem lugar unicamente entre o homem e Deus, não é um elemento constitutivo da pregação.

Isso não exclui de maneira alguma a possibilidade para a pregação, de ser um apelo. De fato, para dizer as coisas exatamente, ela é um apelo endereçado à Igreja dos fiéis. Mas a decisão depende da graça divina – o melhor desse mistério que é a relação do face-a-face, homem-Deus.

O pregador deve saber que esta decisão não depende dele. Acrescentemos que o conceito de pregação não poderia encontrar um fundamento qualquer na experiência. É um conceito teológico, repousando sobre a fé somente. Já afirmamos; não há senão um sentimento: indicar a verdade divina. Não se pode deixar de ir além do seu caráter de conceito para tomar uma forma tangível.

 Caracteres Essenciais da Pregação

A pregação deve ser conforme a Revelação

Vejamos, em primeiro lugar, o aspecto negativo desta afirmação. Isto significa: o papel do pregador não consiste em revelar Deus ou Lhe servir de mediador. O evento da pregação é o Deus loquitur; não é então questão, para nós, de revelar o que quer que seja, nem de uma revelação que passaria por nós, através de nós.

Devemos, e todas as circunstâncias, respeitar o fato de que o próprio Deus se revelou (epifania), e que Ele se revelará (parousia). Tudo o que se passa na pregação – que se situa entre a primeira e a segunda vinda – é a ação do próprio sujeito divino. A revelação é um círculo fechado em que Deus é o sujeito, o objeto e o termo médio.

Resultam então como conseqüências práticas:

  1. a) A pregação não pode pretender a transmissão da verdade de Deus. Ela não pode ter por finalidade provar Deus por uma demonstração intelectual, expondo mais ou menos longamente certas teorias.
  2. Não há outra prova de Deus que aquela que o próprio Deus traz. Nós não temos que expor a verdade de Deus sob uma forma estética usando imagens inúteis ou apresentando Jesus Cristo através de efusões sentimentais.

Quando Paulo diz aos Gálatas que ele colocou diante de seus olhos Jesus crucificado, ele não faz alusão a discursos nos quais teria usado artifícios estéticos para tocar a imaginação de seus ouvintes. Para ele, descrever Jesus Cristo é anunciar sem floreio.

Nós estamos sob o mandamento: “não farás nenhuma imagem, nem semelhança”. Desde que Deus deve Ele mesmo dizer Sua verdade, Sua Palavra, é proibido ao pregador imiscuir-se nessa Palavra com sua arte e sua ciência. Deste ponto de vista, a figura de Cristo na arte, o crucifixo, na Igreja, assim como a apresentação de imagens espirituais de Deus, tornam-se problemáticas.

  1. b) O pregador não deve procurar estabelecer a realidade de Deus. Sua tarefa é construir o Reino de Deus. Ele deve conduzir a uma decisão. Sua mensagem deve ser autêntica e comunicar alguma coisa viva. Ele deve por a nu a situação do homem e o colocar assim diante de Deus. Contudo, ele ultrapassa já seus limites desde que essa confrontação com Deus é concebida (Kierkegaard) como uma “doença que leva à morte”. Certamente, esta expressão supõe coisas que estão implícitas na pregação, mas ela concerne à ação de Deus. Que o homem não intervenha no que não é de sua alçada.

Se se pretende que o homem deve se converter, fazer compartilhar sua fé por aquele a quem ele se dirige, isso não deve ser entendido senão neste sentido: ter consciência do que se produz por ocasião de seu testemunho.

Crer, para o pregador, é olhar para Cristo de tal forma, que perante a assembléia não dê a entender que ele dispõe de Cristo e do Espírito, e que é ele que tem a iniciativa do que está sendo feito. Deus não é um Deus ocioso: é Ele que é o autor da obra que se realiza. Nós não podemos agir senão em obediência à nossa tarefa, e não como pessoas que se teriam dado a si mesmas seu programa e seu objetivo.

Nossa pregação não é qualitativamente diferente da dos profetas e dos apóstolos que “viram e tocaram”, mas ela difere pelo fato de que se produz em um outro momento histórico. Os profetas e os apóstolos se situam no momento da revelação histórica cujo documento é a Escritura. Nós damos testemunho da Revelação.

Mas se Deus fala servindo-se de nossa palavra, então, na realidade, se cumpre este evento: os profetas e os apóstolos estão aí, mesmo se é um simples pastor que fala. Entretanto, devemos ignorar este papel e não nos engrandecer como profetas; se Cristo se digna fazer-se presente por ocasião da nossa palavra, é precisamente porque há nela um ato do próprio Deus, não de nós.

O fato de que as coisas se passam assim, tira das mãos do pregador todas as pretensões a um programa imaginado por ele. Assim, toda iniciativa autônoma tanto para um fim teórico – vir com um tema, um assunto – como para um fim prático – levar os ouvintes a uma determinada atitude – uma tal tentativa não seria outra coisa que um atentado ao que o próprio Deus deseja fazer na pregação.

Se o pregador se dá por tarefa expor uma ideia sob uma forma qualquer – mesmo se esta ideia resulta de uma exegese séria e adequada – então não é a Escritura que fala, mas fala-se sobre ela. Para ser positivo, a pregação deve ser uma explicação da Escritura. Eu não tenho que falar “sobre”, mas “de”, tirando da Escritura o que eu digo. Eu não tenho que dizer, mas que redizer.

Para que só Deus fale, nenhum tema, nenhum objetivo tirado de minha própria natureza deve intervir. Talvez eu tivesse que me perguntar se não me deixei influenciar por alguma idéia própria ou se não tive a impressão de chegar a uma unidade que só Deus poderia criar. Como quer que seja, sigamos o movimento particular do texto, detenham o-nos aí, e não nos coloquemos questões sobre um tema que poderia, ao que nos parece, se desprender do texto.

Em relação ao que acabamos de dizer, a escolha do texto pode representar um perigo, no sentido de que se escolhe um texto relacionado com o assunto que se gostaria de tratar: recorrer à Bíblia para extrair alguma coisa que iria bem com os meus pensamentos! É já suficientemente perigoso ter que falar com um texto particular a uma comunidade particular, e numa situação concreta.

Pode ser que nessa situação concreta, Deus fale e realize um milagre. Todavia nós não devemos integrar antecipadamente o milagre em nossa pregação, pois de outra forma, seria fácil para o pregador tornar-se um papa que se permitiria apresentar, em sua comunidade, suas idéias pessoais como sendo Palavra de Deus.

Vejamos agora o aspecto positivo desta afirmação: a pregação deve ser conforme a Revelação. Devemos partir do fato de que o próprio Deus deseja revelar-se; é Ele que deseja testemunhar sua Revelação; é Ele que a realizou e que a deseja realizar. Assim, a pregação tem lugar na obediência, escutando a vontade de Deus.

Eis aí o evento no qual o pregador se acha engajado, que faz parte de sua vida e que comanda sua pregação, tanto no seu conteúdo como em sua forma. A pregação não um ato neutro nem uma ação entre dois parceiros. Ela não pode ser senão soberania da parte de Deus, obediência da parte do homem.

Somente quando a pregação é dirigida por esta relação, é que ela pode ser encarada como Kerigma, isto é, como uma nova anunciada por um arauto, que cumpre assim sua tarefa.

Então, o pregador é todo-poderoso. Mas, para ser todo-poderoso, ele tem necessidade da onipotência de quem o enviou. O Kerigma significa então: vir da epifania de Cristo para ir em direção ao Dia do Senhor. Assim, é neste duplo movimento: “Deus se revelou”, “Deus se revelará”, que consiste a pregação neo-testamentária.

O que dissemos até aqui implica nas seguintes conseqüências:

  1. a) A pregação tem um ponto de partida absoluto: Deus revelou-se. Isto significa: a Palavra se fez carne. Deus assumiu a natureza humana. Em Cristo Ele se apropriou do homem caído. O homem perdido é chamado ao lar. A morte de Cristo é a última palavra desta encarnação. Nele, a nossa falta e o nosso castigo são afastados, suprimidos. Nele, o homem se tornou um redimido, de uma vez por todas. Nele, Deus se reconciliou conosco. Crer é ver, saber, reconhecer que isto é assim.

Então, se a pregação é dominada por este ponto de partida, ela não pode ser concebida em uma outra atitude senão a do homem que recebe. O pregador sabe, sem contestação possível, que tudo é recolocado em ordem pelo próprio Deus. Contudo, ele é sempre espreitado pela tentação de anunciar o pecado do homem, ou de aprofundar suas idéias errôneas.

É verdade que é preciso falar do pecado e dos erros humanos, mas é preciso fazê-lo mostrando o pecado anulado e o erro destruído. Porque, ou bem é verdade que o homem está perdoado, ou bem ele não tem perdão totalmente. Não de pode falar do pecado senão como sendo levado pelo Cordeiro de Deus.

Da mesma forma, a pregação na qual o Evangelho é separado da Lei, não é cristã. Como anunciar o Evangelho, sem entender também a Lei, esquecendo o “tu deves temer e amar a Deus”? Este perigo é sobretudo sensível no Calvinismo.

Por outro lado, da primeira à última frase, a pregação é conduzida por um movimento. Não se trata da convicção, da seriedade ou do entusiasmo do pregador. A pregação recebe este movimento, partindo do fato: “a Palavra se fez Carne”, e deixando-se guiar constantemente por ele.

Se observasse essa regra, muitas introduções se tornariam inúteis. O movimento não consiste em ir na direção dos homens, mas sim em Cristo vir ao seu encontro. Assim, a pregação tem um movimento descendente, nunca ela deve tender a procurar qualquer ápice. Já não foi tudo cumprido?

  1. b) Dissemos acima que a pregação tem um ponto de partida único, a saber, que Deus se revelou. É preciso dizer também, que ela tem, da mesma forma, um único ponto de chegada: o cumprimento da revelação, da redenção que vem a nosso encontro. De uma extremidade a outra, o Novo Testamento tende para o cumprimento da salvação. Mas isso não contradiz o “tudo foi cumprido de uma vez por todas”.

O Cristo que veio, é também aquele que voltará. A vida da fé é orientada para este dia da Parousia. Este ponto de partida e este ponto de chegada se resumem nesta declaração: “Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente”. E, dado que nós esperamos tudo de Cristo, pode-se dizer que cristologia e escatologia não são senão uma só coisa. Assim, a revelação está tanto na frente como atrás de nós.

Resulta daí que a pregação se situa em um clima de espera. Não se instala confortavelmente na fé, na salvação, como se a graça divina manifestada no passado nos permitisse tranquilamente. Há uma certeza profunda e jubilosa, uma segurança, mas há também a preocupação grave e séria daquele que quer vê-la, porque o cumprimento deve vir. A pregação – como toda a vida cristã – se desenrola entre o primeiro e o segundo Advento.

Nós marchamos pela fé, não pela visão (II Coríntios 5.7). Se vivêssemos já pela visão, não teríamos nada que esperar. Não haveria ontem e amanhã. Mas vivemos pela fé, isto é, viemos de Cristo e vamos para Cristo. Paz e alegria nos dois lados, mas nesta marcha vai-se de riqueza em despojamento, e de despojamento em nova riqueza.

A pregação deve expor esta marcha na fé, o que quer dizer que a certeza confiante não é cristã se ela não é atravessada pela sede de uma salvação futura realizada em Cristo na plenitude. Cristo veio, Cristo virá; nós esperamos seu dia, está é a palavra de ordem. “A Palavra se fez Carne”, tem por corolário: “Amém, ora vem Senhor Jesus”.

A tendência do luteranismo é deter-se no que está atrás de nós, e por isso sua pregação corre sempre o risco de ser desviada para o dogmatismo e para a experiência religiosa. Portanto, Filipenses 3 se relaciona com Filipenses 2: depois de ter mostrado nossa vocação cristã, o apóstolo declara: “não que eu já tenha alcançado, mas corro…”. Há movimento na tranqüilidade da fé.

A proclamação deve proclamar com certeza que “tudo está cumprido”, mas também que “tudo deve ser mudado”. Nós aguardamos um novo céu e uma nova terra. Sim, nós o sabemos, nós estamos reconciliados com Deus, mas somos as hostes que esperam o cumprimento do “eis que faço novas todas as coisas”. É por isso que a pregação é inteiramente levada pela esperança.

O “agora” cristão não é outra coisa senão a passagem do ontem para o amanhã, da Epifania para a Parousia. Nesta perspectiva, nós somos um povo que marcha na noite, mas vemos uma grande luz. “A noite está alta, o dia se aproxima”. Não se pode esquecer estes dois pontos de ligação para que a mensagem seja conforme a Revelação.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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