Estudos Bíblicos

A Igreja Como Noiva

A Igreja Como Noiva
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

Deus na sua sabedoria infinita achou por bem usar a figura da noiva para representar o seu povo.

Porque, de fato, ele entrou em aliança com o povo a quem escolheu. E esta aliança é profunda, irreversível e eterna. Seria exagero dizer que, quando Deus instituiu o casamento, ele já tinha a intenção de que a união de um homem com sua mulher viria a representar a união que ele teria com o seu povo?

No Novo Testamento, quem fala da noiva é João Batista. Quando lhe perguntaram quem ele era, ele esclareceu que não era o Messias esperado e disse:

  “O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em um mim. Convém que ele cresça e que eu diminua “(Jo 3:29)

Isso foi dito, portanto, no contexto de identificar quem era quem no ministério. Muitos criam que João poderia ser o Messias esperado. A maneira interessante de João referir-se a Jesus, como noivo, aponta para alguém que veio procurar e preparar a noiva, para as suas futuras bodas, as bodas do Cordeiro.

  “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo.” (Ap 21:1-2)

Jesus também se refere ao noivo quando os discípulos de João lhe interrogam quanto à prática do jejum:

  “Vieram, depois, os discípulos de João e the perguntaram:

  – Por que jejuamos nós, e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam?

  Respondeu-lhes Jesus:

  — Podem acaso estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? (Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura.

Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.” (Mt 9:14-17)

Aqui o Senhor se refere a uma nova estrutura sendo exigida para uma época nova que estava para ser inaugurada pelo Senhor. As velhas estruturas teriam que desaparecer e ser substituídas pela nova, por causa da sua noiva. Até o jejum deveria ser realizado dentro de um novo contexto e de um novo conceito.

Por hora, com o noivo presente, era mais celebração de alegria do que de contrição. Mas, certamente, viria um tempo de aflição e de arrependimento. Quando o noivo fosse retirado para ir preparar o lugar para a noiva, ela deveria jejuar, buscando revelação, unção, sabedoria e transformação.

Vivemos o momento do intervalo entre a cidade de Jerusalém (o povo) — com quem o Senhor se casou e entrou em aliança, a despeito da sua infidelidade — e a nova Jerusalém — a cidade santa, perfeita, digna do Cordeiro, e que é a noiva imaculada, sem mancha, sem rugas, sem defeito algum, mas majestosa e esplendorosa em santidade e formosura.

O Senhor fez aliança no passado com um povo chamado Israel. E, agora, existe um povo redimido pelo seu sangue; um povo comprado por ele, através do seu sacrifício e do derramamento do seu sangue. Este é o povo por quem Jesus se sacrificou, dando a sua vida. Ele sofreu por este povo, para santificá-lo.

A maneira como Jesus prometeu ao seu povo que iria para o Pai para preparar um lugar e depois viria buscar a noiva para estar junto com ela para sempre é exatamente o que um noivo fazia com sua noiva, nos dias de Jesus.

  “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.” (Jo 14:1-3)

Era deste modo que o noivo agia. Depois de fazer aliança com a noiva, afastava-se dela e voltava para a sua terra, para construir a casa em que ele iria morar com ela. Depois vinha buscá-la, casava-se com ela e, juntos, começavam a nova vida, debaixo do mesmo teto, na casa que foi construída e preparada para eles.

Esta figura não é exclusiva do Novo Testamento. Já no Antigo Testamento Deus tinha chamado o seu povo, o povo de Jerusalém, de sua noiva. Quando com ele estabeleceu aliança, o Senhor o fez de uma maneira muito profunda. Na realidade, ele casou-se com ela.

Jerusalém, a Noiva

Em Ezequiel 16, Deus fala da cidade de Jerusalém como a sua noiva, relembrando quem era ela e de onde veio. Isso é interessante porque, em Apocalipse 21, a Bíblia também chama o povo de Deus de uma cidade: a Nova Jerusalém.

Vejamos o que Ezequiel 16 diz sobre esta cidade. Temos que levar em conta as circunstâncias em que a cidade se encontrava. De acordo com o Dr. Russell Shedd, tudo o que então restava de Israel era a cidade de Jerusalém, e ela encontrava-se despovoada.

Ora, aquela Jerusalém nada mais era do que uma cidade pagã, dos cananeus, tal como a que o rei Davi conquistara e, se ainda tinha alguma glória, era a graça divina que lhe concedia.

  “Assim diz o Senhor Deus a Jerusalém: A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus; teu pai era amorreu, e tua mãe, heteia. Quanto ao teu nascimento, no dia em que nasceste, não te foi cortado o umbigo, nem foste lavada com água para te limpar, nem esfregada com sal, nem envolta em faixas.

Não se apiedou de ti olho algum, para te fazer alguma destas coisas, compadecido de ti; antes, foste lançada em pleno campo, no dia em que nasceste, porque tiveram nojo de ti.

  Passando eu por junto de ti, vi-te a revolver-te no teu sangue e te disse: Ainda que estás no teu sangue, vive; sim, ainda que estás no teu sangue, vive. Eu te fiz multiplicar como o renovo do campo; cresceste, e te engrandeceste, e chegaste a grande formosura; formaram-se os teus seios, e te cresceram cabelos; no entanto, estavas nua e descoberta.

Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha.

  Então, te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo. Também te vesti de roupas bordadas, e te calcei com couro da melhor qualidade, e te cingi de linho fino, e te cobri de seda. Também te adornei com enfeites e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço.

Coloquei- te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça. Assim, foste ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha. (Ez 16:3-13)

Mas o que restava daquela linda cidade não era nem sombra do que ela tinha sido. O que aconteceu com a cidade que tinha sido tão formosa que sua fama percorria toda terra? O Senhor disse:

  “Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor Deus. Mas confiaste na tua formosura…”‘(Ez 16:14-15a)

O povo a quem o Senhor amou, embelezando e enchendo com glória, ficou fascinado por sua beleza e majestade. Olhou para si e, apaixonando-se por si mesmo, começou a confiar em sua beleza, dignidade, capacidade e justiça própria. Esqueceu-se de que a sua origem era uma das mais vergonhosas, simples e humildes. Não se lembrou de que era o que era, apenas pela misericórdia de Deus.

Realmente a noiva esqueceu-se de que entrara em aliança com o Senhor e que havia prometido total fidelidade ao seu redentor. Ela havia prometido amar o seu Noivo e somente a ele. Ele seria dela e ela, dele. Por isso, o Senhor a havia honrado em extremo.

O Senhor não se importou com a condição imunda em que ela foi encontrada, e por ter sido desprezada e rejeitada; o Senhor a amou incondicionalmente e com toda ternura e afeto a fez linda, refletindo a sua glória. Portanto, a sua formosura era o reflexo da pessoa e da glória do Senhor. Ele queria que ela fosse feita e formada para ele e por ele; e que vivesse através dele.

A glória dele seria a glória dela. A formosura dela seria apenas o reflexo da formosura do Senhor, pois ela estaria refletindo a beleza daquele que é o mais formoso dos filhos dos homens.

  “Mas confiaste na tua formosura e te entregaste á lascívia, graças à tua fama; e te ofereceste a todo o que passava, para seres dele. Tomaste dos teus vestidos e fizeste lugares altos adornados de diversas cores, nos quais te prostituíste; tais coisas nunca se deram e jamais se darão.

Tomaste as tuas jóias de enfeite, que eu te dei do meu ouro e da minha prata, fizeste estátuas de homens e te prostituíste com elas. Tomaste os teus vestidos bordados e as cobriste; o meu óleo e o meu perfume puseste diante delas. O meu pão, que te dei, a flor da farinha, o óleo e o mel, com que eu te sustentava, também puseste diante delas em aroma suave; e assim se fez, diz o Senhor Deus.

Demais, tomaste a teus filhos e tuas filhas, que me geraste, os sacrificaste a elas, para serem consumidos. Acaso, é pequena a tua prostituição? Mataste a meus filhos e os entregaste a elas como oferta pelo fogo. Em todas as tuas abominações e nas tuas prostituições, não te lembraste dos dias da tua mocidade, quando estavas nua e descoberta, a revolver-te no teu sangue. ” (Ez 16:15-22)

Então a gloriosa noiva confiou na sua beleza, na sua capacidade e na sua própria habilidade, e caiu no pecado da soberba e orgulho. A altivez encheu o seu coração. O espírito de sedução começou a controlá-la. Foi tomada do espírito de narcisismo e de egolatria. Passou a contemplar a sua formosura e a adorar a si mesma.

Quando foi tentada não teve mais forças para resistir às mentiras dos seus  assediadores e foi seduzida facilmente. Esqueceu-se da aliança para a vida e do seu compromisso eterno.

O seu coração ficou entrevado. Havia passado por uma profunda transformação. O orgulho cegou-a. Ela pensava que era moderna, racional, coerente com a vida que o momento exigia. Ela nem sequer percebeu que tinha enlouquecido (Veja Romanos 1:22: “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos.”).

O pior foi que os seus amantes eram os ídolos que não têm olhos, nem ouvidos, nem boca para se comunicar. Mas a sua cegueira foi tamanha que nem percebeu que tinha trocado a glória de Deus, o Criador, com a criatura (Veja Romanos 1:25: “Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador.”).

A sedução era tão grande que ela ouvia o ídolo falar, guiar, curar e prover todas as suas necessidades. Como disse Koissuke Koyama, a permuta mais dinâmica entre o ídolo e o seu adorador começou ocorrer. Quanto mais o ídolo tornava-se eloquente, mais ela tornava-se passiva e perdia a sua capacidade de expressar-se  ( Koyama, Koissuke – Do Monte Fugi ao Monte Sinai).  Ela havia se tornado escrava e cativa dos seus amantes.

Ela, a Noiva, começou a prostituir-se. Os seus amantes, ídolos e postes-ídolos foram vestidos com as roupas que o Senhor lhe havia dado. O ouro e a prata, e as jóias que o Senhor lhe dera foram tomados para confeccionar ídolos e estátuas.

O pior de tudo foi que os filhos que ela recebera do Senhor começaram a ser sacrificados em altares dedicados ao deus Moloque, ao deus Camos, a Astarote e aos deuses Adrameleque e Anameleque (1 Reis 11:5-6; 2 Reis 17:31).

O comportamento vergonhoso prosseguiu: a prostituição foi com a Assíria, multiplicando esse pecado em toda a Canaã e até a Caldeia.

Embora esta história tenha sido escrita no tempo do exílio, pelo profeta Ezequiel, esta é também a nossa história, como povo de Deus. Há muita coisa que se pode dizer sobre a Igreja brasileira: logo no nascedouro, ela começou a prostituir-se: entrou em aliança com a  maçonaria.

Isso é algo vergonhoso. A falta de conhecimento e de discernimento nos levou a fazer um pacto com as trevas. Fomos enganados. E que engano!

Quanta idolatria há em nosso meio! Os ídolos são inúmeros. Há pastores idolatrados. Várias denominações têm sido alvo da idolatria de multidões! O ministério é um dos ídolos mais disputados, neste momento. Criamos os nossos impérios e nos curvamos diante deles.

O poder e o controle, representando Jezabel; a moeda, representando Mamom; a sensualidade representando Diana — todos estes estão atuando na Igreja. Nossos filhos, dados por Deus, têm sido sacrificados nos altares dos impérios pessoais que são o rádio, a televisão, o dinheiro, a fama, a reputação, a escola, o império…

Os filhos que foram gerados por Deus têm sido apresentados nos altares do ganho pessoal e da prosperidade perniciosa: toma lá, dá cá; um mercantilismo selvagem de soberba e vaidade pessoal. Quantas ovelhinhas têm vindo chorar, dizendo que com sacrifício pagaram os carnês para a televisão e para o programa de rádio que nunca saíram do papel…

  “Depois de toda a tua maldade (Ai, ai de ti! diz o Senhor Deus); edificaste prostíbulo de culto e fizeste elevados altares por todas as praças. A cada canto do caminho, edificaste o teu altar, e profanaste a tua formosura, e abriste as pernas a todo que passava, e multiplicaste as tuas prostituições.

Também te prostituíste com os filhos do Egito, teus vizinhos de grandes membros, e multiplicaste a tua prostituição, para me provocares à ira.” (Ez 16:23-26)

A adoração do próprio império, do próprio ministério é como a edificação de um prostíbulo cultual, porque não é Deus sendo exaltado e glorificado, mas sim a inteligência humana, a capacidade, a criatividade do homem, o poder do marketing.

A história de Jerusalém é a nossa história, a história da igreja local e da Igreja brasileira, que se embriagou com pequenos presentes dados por Deus e que se ufanou e se embriagou num triunfalismo ingênuo.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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